Às vezes estamos no meio de centenas de pessoas, e a solidão aperta nosso coração pela falta de uma única pessoa.
Luis Fernando Veríssimo.
A gente é uma tremenda composição de partes. Toda pessoa tem consigo uma que, teoricamente, dá sentido a outras. Teoricamente. Porque na prática até a Maria do 410 sabe que nada tem sentido. E concorda que a vida é uma caixinha que não nos permite reembrulhar e devolver ao remetente caso não goste da surpresa. E quase ninguém gosta. Porque todos somos sujeitos a precisar de outra parte e isso é sempre um problema. Pra enfatizar mais um pouco: Um grande problema. E todos precisamos de outra parte. Porque somos seres racionais e necessitamos, por natureza, seguir uma linha de relacionamentos. Precisamos de outra parte que nos dê carinho, afeto e que nos transmita a sensação de segurança. Precisamos de outra parte que tenha toda a paciência que esse mundo pode oferecer, para aguentar os melodramas e as crises existenciais que estamos sujeitos a sentir. Precisamos também de uma parte que tenha sangue frio nos piores momentos, e chega com firmeza nos motivando: “ — Vai porra, eu to contigo.” E a gente tenta colocar a cabeça no lugar depois dela ter viajado por todos os mais medonhos e trêmulos lugares do mundo na procura de uma solução. E todo mundo continua precisando de outra parte. Inclusive eu, na minha grande e falha expectativa de suprir minhas carências e meus momentos melancólicos. E é isso que torna tudo mais difícil pra mim: Você é aquela parte que eu tirei na caixinha, da qual eu não queria precisar.
Pedro Pinheiro.
Eu juro que não. Eu nego. Com a boca, digo não. Hoje, não. Negativo. Agora não. Não dá mais. Não pode ser. Não. Nem pensar. Não, eu disse. Porque não. Não, não e não. Repassando - não. Não, mas obrigado. Quando digo não é não. Pela última vez: não. Aí você abre a porta e tudo muda de figura. Ah, não.
Gabito Nunes.
Eu tenho uma coleção de canetas. Parece supérfluo, mas não é. Há quem colecione amores, há quem colecione vícios, há quem colecione dores. Eu coleciono canetas. Cada uma de um jeito, de uma cor, de uma forma. Em cada uma, histórias, lembranças, pedaços de mim. Hoje eu tremi de dor, chorei de tristeza, solucei da vida e lembrei de um tempo em que eu não sabia porque eu tremia, porque eu chorava e porque eu soluçava. Hoje eu vi meu pai recitando um poema. Hoje eu me vi recitando uma dor e proseando com uma lágrima. Então comprei uma caneta só para lembrar que eu, eu mesmo, eu não coleciono canetas. Eu coleciono momentos.
Cinzentos.
Sempre admirei o vilão, o fora da lei, o filho da puta. Não gosto dos garotos bem-barbeados com gravatas e bons empregos. Gosto dos homens desesperados, homens com dentes rotos e mentes arruinadas e caminhos perdidos. São os que me interessam. Sempre cheios de surpresas e explosões. Também gosto de mulheres vis, cadelas bêbadas que não param de reclamar, que usam meias-calças grandes demais e maquiagens borradas. Estou mais interessado em pervertidos do que em santos. Posso relaxar com os emprestáveis, porque sou um imprestável. Não gosto de leis, morais, religiões, regras. Não gosto de ser moldado pela sociedade.
Charles Bukowski.
Já tive outros e já amei outros. Já sofri por eles e já quase te esqueci graças à eles também. Mas depois que acaba, no fim, ou no intervalo de um para o outro, quando só me sobra eu mesma e minha confusão, meus sentimentos me encaram e me confrontam, e eu só vejo você. Só tem você ao meu redor no sábado de noite terminando com alguém. Tem você quando eu me fecho e não deixo ninguém entrar na minha vida, porque morro de medo e é sua culpa. Você na forma como eu escrevo, na música do Leoni, no texto da coca-cola. Cada parte do que eu sou… ainda é você. Mil anos e alguns caras depois e ainda é você.
Iolanda Valentim. (via versificar)

